quinta-feira, 3 de junho de 2010

A cultura da 'olhadela'

“Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas
condições de produção se apresenta como uma imensa
‘acumulação’ de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente
tornou-se uma representação.”
(Guy Debord)


A premissa sugerida pela citação acima é a de que ao deparar-nos com uma sociedade (industrial) tecnologicamente desenvolvida, percebemos a formação de uma nova cultura midiática. Nela, a criação (ou a arte) está em crise, uma vez que a produção industrializada, com seu característico ritmo acelerado e que impede que haja o aprofundamento nas coisas, acaba ocasionando, como consequência, a superficialidade nas relações, tanto de consumo como na própria sociedade e do homem em si. É a cultura da ‘olhadela’, que anestesia o espectador com os espetáculos do dia a dia e os tornam reféns da TV, como é o caso da sociedade brasileira.

De acordo com Derrick de Kerckhove, em ‘A Pele da Cultura’, a TV fala ao corpo e não à mente. As formas superficiais como os conteúdos são abordados (com grande número de imagens e comunicação verbal rudimentar) inibem as nossas faculdades críticas, funcionando como uma espécie de anestésico. Esta é uma das causa do afastamento do hábito da leitura, por exemplo, já que não é mais preciso pensar, visto que a TV entrega tudo pronto para o consumo. Desse modo, torna passiva a mente da pessoa, já que o hábito de pensar se foi com o advento das ‘olhadelas’.

Diante do exposto pelo crítico canadense, concluímos que a TV tem o papel de doutrinadora. Na teoria, a televisão prega a liberdade de expressão, mas na prática, está suprimindo a liberdade de pensamento. Percebemos isso quando a crescente subordinação das pessoas ao regime das imagens torna (e tornará) frágil, as potencialidades cognitivas e perceptivas da massa, em favor de si própria, que caracteriza-se como agente ativador de excitação (daí os espetáculos).

Em decorrência de tudo que a tecnologia possibilita nesse aspecto, ou seja, toda a abrangência e oferta, as pessoas, na ilusão da interatividade, têm acesso a um grande número de imagens (muita oferta de ‘enlatados’), as quais a memória não dá conta, o que ocasiona menos retenção e mais dispersão. Com a capacidade de concentração afetada, a sociedade sem desejos e sem planos se esvai deprimida.

Em síntese, os espetáculos do dia a dia que re-tratam e re-produzem sempre as mesmas coisas, destinam-se ao adestramento da massa. A torna calma e receptível ao que há de ‘novo’, as entretém. Desde sempre, aqueles que obtêm o poder são os mesmos que detêm o saber, a linguagem. “Acesso é poder e o poder é a informação” (música de Fernando Anitelli); a sensação de acesso que a TV permite é ilusória e anestésica. No Brasil, é assim que se faz o domínio.


“Um minuto de silêncio é um minuto reservado de murmúrio, de anestesia. O sistema é nervoso e te acalma com a programação do dia, com a narrativa.”
(Xanel nº5 – Fernando Anitelli e Zeca Baleiro)

1 reação (ões):

Priscilla disse...

Esse textão todo é seu??
ADOREI!
bju

ps: agora te sigo fielmente no blog, minha careta está ali exposta pra comprovar.

BlogBlogs.Com.Br